O texto “O que é virtual?” de Pierre Lévy apresenta um pouco da definição de virtual fugindo apenas do mundo cibernético. Quando ele fala de virtualização do corpo, usa os exemplos clássicos das maneiras de modificar a estética pessoal: dietas, body buildings, cirurgias plásticas, etc. Lévy afirma que a virtualização dos corpos que experimentamos hoje é uma nova etapa na aventura da autocriação que sustenta a nossa espécie. O autor afirma que os sistemas de realidade virtual, e aí ele utiliza como exemplo o telefone, transmitem mais que imagem: uma quase presença, transportando a própria voz para outro lugar, separando-a do corpo tangível e fazendo sua transmissão à distância. Para Lévy, a virtualização do corpo também incita às viagens e a todas as trocas, sendo os transplantes os criadores de uma grande circulação de órgãos entre os corpos humanos, inclusive entre mortos e vivos.
Lévy fala também da virtualização do texto. Segundo ele, o texto é uma entidade virtual que atualiza-se com versões, traduções, edições, exemplares e cópias. As passagens do texto, segundo o autor, mantêm entre si virtualmente uma correspondência atualizada de um jeito ou de outro, seguindo ou não as instruções de quem escreve. Ao falar de textos exibidos em computadores, Lévy diz que nenhuma diferença se introduz entre um texto possível da combinatória e um texto real que será lido na tela. Assim, não se deveria falar de imagens virtuais para qualificar as imagens digitais, mas de imagens possíveis sendo exibidas. A digitalização e as novas formas de apresentação do texto só nos interessam porque dão acesso a outras maneiras de ler e compreender.
Segundo o autor, o leitor em tela torna-se mais ativo que o leitor em papel, pois, antes mesmo de interpretar, ele precisa enviar um comando a um computador para que projete alguma realização parcial do texto sobre uma pequena superfície luminosa. Para Lévy, considerar o computador apenas como um instrumento a mais para produzir textos sobre suporte fixo é o mesmo que negar sua fecundidade propriamente cultural, ou seja, o aparecimento de novos gêneros interativos.
Lévy afirma que teríamos uma visão parcial da virtualização contemporânea do texto e da leitura se a focalizássemos apenas na passagem do papel à tela do computador. O computador, hoje, é um componente incompleto da rede calculadora universal que distribui todas as funções da informática.
Segundo o autor, graças à digitalização, o texto e a leitura receberam hoje um novo impulso, e ao mesmo tempo uma profunda mutação. Ele acredita que os livros, os jornais, os documentos técnicos e administrativos impressos no futuro serão apenas, em grande parte, projeções temporárias e parciais de hipertextos on line muito mais ricos e sempre atrativos.
Porém, Lévy deixa claro que a virtualização do texto não acabará com a sua forma clássica de apresentação. Ele diz que, longe de aniquilar o texto, a virtualização parece fazê-lo coincidir com sua essência subitamente desvelada. Como se acabássemos de inventar a escrita.